Crise Européia, Brasil e o Planejamento Estratégico

Nas últimas semanas os mercados financeiros nacional e internacionais têm vivido novos momentos de turbulência. A crise orçamentária dos países europeus que formam os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) trouxe novamente o clima de tensão aos mercados e gerou uma queda abrupta da confiança dos investidores na capacidade de pagamento de nações com alto índice de endividamento.
Mas, o que de fato essa nova turbulência do mercado pode causar de abalos ou danos a economia brasileira? Como as empresas devem considerar esse novo contexto em suas definições e planos estratégicos?
Entendendo a crise
Primeiramente vamos entender a origem da crise: com a formação da União Européia consolidou-se em um bloco único países com sensíveis diferenças macro-econômicas. A construção e consolidação do bloco trouxe uma série de benefícios para as economias européias dentre as quais a disponibilidade de uma moeda forte e comum, mercados de capital unificados e livre comércio com os demais países membros da UE. Porém a unificação econômica não trouxe em conjunto a unificação política e a eliminação das desigualdades produtivas e de capacidade financeira dos países.
Em uma tentativa de propulsionar suas economias durante a crise, os países que formam os PIGS somaram gastos governamentais a um nível de endividamento que já se apresentava como preocupante no pré-crise. Revelado o estado de insolvência da economia Grega, desnudou-se uma deficiência grave em termos de capacidade de pagamento em outras importantes nações européias, sendo este o estopim de toda a instabilidade atual.
Efeitos sobre o Brasil e sobre os planos estratégicos do setor empresarial
Três efeitos já se mostram claros, embora ainda com baixa intensidade no cenário nacional. O primeiro deles é a valorização do dólar, puxado pela alta demanda de investidores externos pela moeda buscando cobrir as perdas em outros mercados e preservar seus ativos em uma moeda de menor risco. O segundo efeito é a aceleração da inflação, com a economia próxima a um superaquecimento (crescemos cerca de 10% no 1º. trim.) o aumento do dólar impulsiona os preços de produtos que utilizam bens importados como insumo. O terceiro e último efeito é a perda de fôlego do mercado financeiro, com o aumento da taxa de juros básica, os títulos públicos tornaram-se atrativos e a saída de investidores estrangeiros diminuiu a atratividade dos ativos, reduzindo a capacidade das empresas brasileiras de captarem recursos no mercado acionário.
O ambiente de incerteza e a mudança de variáveis chaves do cenário econômico demandam uma capacidade de resposta rápida do setor empresarial de forma a considerar alterações em seus planos estratégicos vigentes. Neste momento se torna ainda mais importante reforçar a tarefa de EXPLORAR constantemente o ambiente externo dentro do ciclo de planejamento estratégico da organização. Metas e projetos que são sensíveis a variações cambiais e inflacionárias devem ser cuidadosamente reavaliados, assim como planos de contingência devem ser elaborados para mitigar possíveis agravamentos da situação econômica.
Uma estratégia e uma visão só alcançam efetividade de longo prazo quando apresentam um fluxo consistente de revisões e uma considerável capacidade de se flexibilizar no curto prazo.
Em suma, até o momento podemos concluir que o Brasil está distanciado da crise européia, mas os efeitos percebidos já são o suficiente para manter o sinal de alerta acesso nas reuniões de gestão estratégica e na tomada de decisão de curto prazo da empresa. Portanto, mais uma vez vale agir com cautela e utilizar os recursos da organização com parcimônia: pior do que enfrentar uma crise é passar pela crise sem enfrentá-la.



Excelente texto, parabéns! Conciso e direto, apresenta um ótimo lembrete àqueles que ainda ignoram a crise.
Achei o artigo bem esclarecedor, principalmente para pessoas de outras áreas como é o meu caso. Parabéns!
Que bom, é sempre esclarecer assuntos de grande interesse que acabam ficando muito complexos devido a diversidade de informações e de opiniões.
Obrigado pela leitura!!!
Obrigado Thiago! não podemos nos dar o luxo de pensar que todas as crises passarão ao longe de nossa economia, ficar sempre de olhos atentos e prevenir é melhor do que tentar remediar depois com ações mal planejadas.
Abraços!
Texto muito bom, direto ao ponto!
Alguns desdobramentos práticos do texto:
Para quem “investe” em bolsa é importante lembrar que a crise ainda não acabou e que nossa bolsa ainda depende muito de investidores estrangeiros para crescer. Portanto, se a crise da Europa piorar, nossa bolsa cai (independente dos fundamentos das nossas empresas e do país), o contrário também é verdadeiro.
Para os “empresários” que tem foco no mercado brasileiro a crise na Europa não vai impactar tanto, excetos os que tem seus insumos produtivos críticos dependentes da importação (a fuga de capitais eleva a cotação do dólar) e se a empresa depende de capital intensivo para se manter competitiva ou para crescer (pois os juros estarão mais altos).